terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A tão conhecida Rocinha. Conhecida mesmo?


Sempre que se ouve falar da Rocinha na mídia, as notícias são de violência, balas perdidas e o domínio do tráfico. Quando fiquei sabendo que visitaríamos essa favela, minha primeira reação foi de medo. Entretanto, como já relatei, tive a oportunidade de participar de um plantão noturno do CAPs III, no qual fui com bastante receio. No dia seguinte permaneci na Rocinha e tive a oportunidade de acompanhar o agente Eden no cadastramento da população para o acesso aos serviços de saúde. Logo na saída, nos foi dito para não ficarmos impressionados com as armas que veríamos lá, e até aquele momento era só isso que eu espera ver. Começamos nossa caminhada passando pelas obras do PAC. Casas coloridas, escadaria com corrimão, uma pracinha.. Infraestrutura básica. Continuamos nosso trajeto, e quando o agente Eden entrou em um espaço pequeno, me pareceu que o mesmo estava entrando em alguma casa, quando percebi, estávamos descendo escadas irregulares e apertadas.  Descemos e descemos,
sentindo cada vez mais calor e menos circulação de ar (não é a toa que a média de tuberculose na rocinha é maior que a média brasileira). Acompanhamos então o primeiro contato com uma moradora da Favela. Eden só foi entregar uma receita, resultado de uma consulta feita pela usuária. A senhora foi bastante atenciosa, conversamos um pouco, ela disse não usar muito os serviços de saúde, mas ter uma boa impressão da rede. Fomos embora depois de alguns minutos com ela se desculpando pelo mal cheiro que estava ali, resultado de um esgoto aberto que passava ao lado da casa. Começamos a subir as escadarias, me sentia cada vez mais em um labirinto, vimos muito lixo e esgoto, alguns ratos e várias baratas. Vimos também pessoas que viviam ali descer rapidamente aquelas escadarias que me pareciam tão difíceis de vencer. Cada morador que passava por nós nos cumprimentava, muitos sorriam e eu me questionava se esse bom humor, ou felicidade realmente era possível naquelas condições. Fomos recebidos em uma casa com água gelada e nos apaixonamos por uma criança linda que ali morava. O menino corria de pés descalços e por muitas vezes colocava uma madeira que encontrara no chão na boca. Quando já nem me lembrava mais da orientação de permanecermos naturais se víssemos pessoas armadas, ouvimos uma gurizada, ou rapaziada, como se diria ai no Rio, descendo rumo à praia, todos nos cumprimentaram, inclusive os meninos que andavam armados e aquilo foi tão natural que se estivesse um pouco destraída nem percebería a presença daqueles objetos.
Até então estava impressionada com aquele espaço dentro da Rocinha composto por Unidade de Pronto Atendimento, Clínica da Saúde da Família e Centro de Atenção Psicossocial. Mas é possível fazer saúde apenas com essa infraestrutura impactante? Ou com os profissionais da saúde que integram as equipes dali? Enquanto andava por ali me questionava continuamente o que eu faria se tivesse o poder de melhor a vida daquelas pessoas. Começaria avaliando aquelas casas que foram construídas por moradores em terrenos íngrimes e sem considerar a necessidade de pegar luz ou simplesmente de pensar na circulação do ar? Refazendo aquelas escadas que não permitem que idosos ou deficientes físicos saiam de casa? Daria prioridade ao saneamento básico que hoje é inexistente naquela realidade e é sem dúvida um dos principais geradores de doença naquelas famílias? Investiria na educação para futuramente as pessoas apreenderem a importância de bons hábitos para uma boa saúde? Alguma dessas opções resolveria sozinha a vida e a saúde dessas pessoas? Acho que só uma integração dos órgãos públicos da área da saúde, urbanismo, educação entre outros, resolveria a saúde na Rocinha. E quando isso vai acontecer na vida de mais de 100 mil habitantes? É isso que me preocupa.
Com certeza essa foi a melhor experiência que o VER-SUS me proporcionou. Nunca havia visto nem sentido tanta falta de condições para gerar Saúde!

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