Sempre que se ouve falar da Rocinha na mídia, as notícias são de violência, balas perdidas e o domínio do tráfico. Quando fiquei sabendo que visitaríamos essa favela, minha primeira reação foi de medo. Entretanto, como já relatei, tive a oportunidade de participar de um plantão noturno do CAPs III, no qual fui com bastante receio. No dia seguinte permaneci na Rocinha e tive a oportunidade de acompanhar o agente Eden no cadastramento da população para o acesso aos serviços de saúde. Logo na saída, nos foi dito para não ficarmos impressionados com as armas que veríamos lá, e até aquele momento era só isso que eu espera ver. Começamos nossa caminhada passando pelas obras do PAC. Casas coloridas, escadaria com corrimão, uma pracinha.. Infraestrutura básica. Continuamos nosso trajeto, e quando o agente Eden entrou em um espaço pequeno, me pareceu que o mesmo estava entrando em alguma casa, quando percebi, estávamos descendo escadas irregulares e apertadas. Descemos e descemos,
sentindo cada vez mais calor e menos circulação de ar (não é a toa que a média de tuberculose na rocinha é maior que a média brasileira). Acompanhamos então o primeiro contato com uma moradora da Favela. Eden só foi entregar uma receita, resultado de uma consulta feita pela usuária. A senhora foi bastante atenciosa, conversamos um pouco, ela disse não usar muito os serviços de saúde, mas ter uma boa impressão da rede. Fomos embora depois de alguns minutos com ela se desculpando pelo mal cheiro que estava ali, resultado de um esgoto aberto que passava ao lado da casa. Começamos a subir as escadarias, me sentia cada vez mais em um labirinto, vimos muito lixo e esgoto, alguns ratos e várias baratas. Vimos também pessoas que viviam ali descer rapidamente aquelas escadarias que me pareciam tão difíceis de vencer. Cada morador que passava por nós nos cumprimentava, muitos sorriam e eu me questionava se esse bom humor, ou felicidade realmente era possível naquelas condições. Fomos recebidos em uma casa com água gelada e nos apaixonamos por uma criança linda que ali morava. O menino corria de pés descalços e por muitas vezes colocava uma madeira que encontrara no chão na boca. Quando já nem me lembrava mais da orientação de permanecermos naturais se víssemos pessoas armadas, ouvimos uma gurizada, ou rapaziada, como se diria ai no Rio, descendo rumo à praia, todos nos cumprimentaram, inclusive os meninos que andavam armados e aquilo foi tão natural que se estivesse um pouco destraída nem percebería a presença daqueles objetos.
Com certeza essa foi a melhor experiência que o VER-SUS me proporcionou. Nunca havia visto nem sentido tanta falta de condições para gerar Saúde!
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